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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O Convite, sexo, casamento e o desejo de voltar a se sentir vivo em um relacionamento estagnado e fadado ao fracasso

 

Como falei no outro post, recentemente tive um termo que foi um tanto quanto doloroso. E a culpa do fim foi 100% minha. Íamos muito ao cinema, e uma ou duas semanas depois do término tomei coragem pra a ir sozinho assistir a um filme que eu estava ansiosíssimo pra conferir: Trata-se de “O Convite”, dirigido pela Olivia Wilde, ótima na direção e também entregando uma performance precisa, engraçada e também dolorosa. Esse filme, além de abordar de forma digna e inteligente o sexo entre casais (o famoso swing), também fala sobre como um relacionamento estagnado pode levar a uma vida sem sentido. Foi uma tapa na cara ver isso, por conta do momento em que eu estou passando. E talvez isso tenha enriquecido a minha experiência como espectador. O filme é 10 de 10.

Para ler a minha crítica completa, sem desabafos e com palavras mais bonitinhas, acesse:

Veja crítica completa – “O Convite” (2006) – Direção: Olivia Wilde (EUA)

domingo, 25 de outubro de 2015

O conformismo e conflito de classes retratados no premiado "Que Horas Ela Volta? (The Second Mother)"

"Ninguém precisa explicar, a pessoa já nasce sabendo o que pode e o que não pode".  


Essa é a resposta que a doméstica Val, interpretada por Regina Casé, no filme "Que Horas Ela Volta?", dá para sua filha Jéssica (Camila Márdila) quando a mesma lhe questiona sobre a passividade com que lida e aceita o tratamento de segunda classe que recebe dos seus patrões. Trata-se de uma teoria elitista perversa, inocentemente reproduzida pelas classes mais baixas, de que nada deve ser renovado, transformado, evoluído ou desejado. É assim, e pronto. O lugar da empregada e do patrão são pré-estabelecidos por uma linha divisória e ninguém ultrapassa ela. Ninguém se mistura.





Cada frase dita pela doméstica Val no longa-metragem é um soco no estômago, é de fazer a gente sair da sala do cinema morrendo de vergonha pela naturalização do conformismo no discurso dos trabalhadores brasileiros, um discurso que as classes mais altas impõe às mais baixas. E isso é histórico. O conflito de classes, o conformismo daqueles que vestem, sem reclamar ou questionar, a carapuça da inferioridade, acreditando que a mobilidade social não passa de um sonho impossível. Isso me envergonhou não só no cinema, mas também em casa, nas ruas, e nos corredores de uma USP elitista, movida a indignação seletiva e discursos meritocráticos. Que bom que o mundo viu e aplaudiu esse filme, que bom que a excelente diretora e roteirista Anna Muylaert escancarou para quem quisesse ver, como a sociedade brasileira é arcaica, feudal e hipócrita. Na Europa, aplaudiram o roteiro do filme, acharam tão inusitada e surreal essa relação perversa entre doméstica x família de classe média alta, que isso só poderia ter sido fruto de uma mente genial, de um roteirista criativo, inovador e surrealista. Mas não. Essa é a triste realidade do Brasil. Vai ter filha de empregada nadando em piscina de patrão sim, vai ter filha de empregada estudando nas melhores faculdades públicas do país sim, e se reclamar, vai ter mais!



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O Sal da Terra: a arte de fotografar retratada no documentário franco-brasileiro indicado ao Oscar

"Minha fotografia não é militância, não é uma profissão. É minha vida. Adoro a fotografia, fotografar, estar com a câmera na mão, olhar pelo visor, brincar com a luz. Adoro conviver com as pessoas, observar as comunidade - e agora também os animais, as árvores, as pedras. Minhas fotografias são tudo isso, e não posso dizer que são decisões racionais que me levaram a olhar para isto ou aquilo. É algo que vem de dentro de mim. O desejo de fotografar está constantemente me levando a recomeçar. A buscar outros lugares. A procurar outras imagens. A tirar novas fotografias, ainda e sempre."Sebastião Salgado




O Sal da Terra

Direção: Juliano Ribeiro Salgado, Wim Wenders
Gênero: Biografia/Documentário
Ano: 2014
Origem: Brasil/França/Itália
Duração: 110 minutos
Sinopse: O filme conta a trajetória do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e seu projeto "Gênesis", cujo objetivo era registrar, a partir de imagens, civilizações e regiões do planeta até então intocados.




A fotografia, de acordo com o artista e teórico Philippe Dubois, não é simplesmente uma imagem, é também "um ato icônico, algo que não é possível conceber fora de suas circunstâncias. A foto é uma imagem-ato que não se limita apenas ao gesto da produção, mas que inclui o ato de sua recepção e contemplação". Dessa forma, a fotografia é o espelho do mundo, ela acompanha a transformação de uma realidade da qual ela faz parte. A produção e criação de uma imagem e a sua contemplação são os dois lados de um mesmo ato criativo. Em consonância com este pensamento, onde o ato de fotografar se apresenta quase como uma prática revolucionária, "O Sal da Terra" nos apresenta a obra e a genialidade do fotógrafo Sebastião Salgado. Este artista viajou durante os últimos quarenta anos pelo mundo todo, registrando os acontecimentos mais importantes da segunda metade do século XX.


Depois de fotografar durante anos os conflitos sociais mais terríveis do planeta e as suas consequências (fome, refúgio, massacres, revoluções, guerras e desastres), o artista embarcou em um ambicioso projeto para documentar a interação entre o homem e a natureza, a fim de apelar para o consciência de preservar os ecossistemas do planeta. Parece que é através da sua obra que Sebastião vai buscando o sentido da existência, questionando os aspectos mais obscuros da humanidade e tentando encontrar dentro das experiências mais cruéis e revoltantes aspectos de luz e de dignidade que permitem voltar a crer na humanidade. Essa busca se revela também em seu último trabalho, onde a natureza é a protagonista. A natureza, e o cuidado da mesma, é concebida como uma espécie de volta às origens e como uma possibilidade de redenção.


As reflexões sobre a arte da fotografia e em especial sobre o comportamento humano fazem desse documentário uma experiência visual, e também filosófica, extraordinária e chocante, como poucas vezes se viu no cinema. Vida longa ao Mestre!





segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Os sentimentos da argila...


Um dos melhores  e mais profundos filmes que eu já vi na vida foi a animação (feita de argila, por sinal) Mary & Max - Uma Amizade Diferente, do diretor Adam Elliot, que conta a história de amizade entre dois correspondentes muito improváveis: Mary, uma solitária menina australiana de oito anos e Max, um senhor obeso e obsessivo de 44 anos que vive em Nova York. 

As cartas que os dois amigos trocam retratam temas profundamente humanos e delicados. Mary desabafa sobre a ausência do pai e os excessos da mãe alcoólatra, Max por sua vez, expressa por meio das palavras toda a sua solidão, falta de amigos e os sintomas sofridos pela sua "síndrome de Asperger". A animação, que nada tem a ver com aquelas da Pixar, é ousada e corajosa ao escancarar temas polêmicos e extremamente relevantes, ora com uma sensibilidade única, ora com um humor negro bastante peculiar. Essa improvável união resulta numa obra com um grau de sinceridade poucas vezes vista no cinema.


Além da abordagem, o que mais impressiona nesse projeto é a a expressão de tristeza, frustração e angústia estampada na cara dos seus personagens. Eles não passam de uma massinha de argila, mas o sentimento que transmitem é assustadoramente real e perturbador. Poucos atores conseguiriam ser tão viscerais assim. 


E o final do filme? É pura poesia. Mary & Max - Uma Amizade Diferente, recomendo.


Por: @FelipeTavares

terça-feira, 23 de julho de 2013

Confira os pontos turísticos do filme "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain"


Sucesso no mundo todo, o cultuado filme do cineasta Jean-Pierre Jeunet, "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)", nos traz muito mais do que uma bela história repleta de cenas memoráveis, a comédia francesa também funciona como um ótimo guia turístico de Paris, e como originalidade é uma das principais características desse longa-metragem, Amélie Poulain retrata muito mais do que a já óbvia Paris da Torre Eiffel, dos Campos Elísios e do Arco do Triunfo que o cinema hollywoodiano já cansou (ou não!) de nos mostrar.

Até hoje, é grande o número de cinéfilos que se interessam em visitar ou saber mais sobre os lugares onde foram gravadas as cenas do filme, ambientado no Bairro de Montmartre (Norte de Paris). Veja agora uma seleção dos 10 locais que ajudaram a contar a fabulosa história de Amélie Poulain nas telonas:


1 - Moulin Rouge: O famoso cabaret que aparece em uma rápida passagem do filme.


2 - Cafeteria Des 2 Moulins: O local onde Amélie trabalha é tão incrível na realidade quanto no filme. Lá os clientes podem optar em pedir o Menu da Amélie além de ter a oportunidade de conhecer o gnomo do filme que foi mantido no local.


3- Studio 28 Cinema: Esse é o cinema onde Amélie observava detalhes dos filmes e da plateia.


4- Au Marché de la Butte: a frutaria do filme, uma das principais paisagens, é na verdade uma mercearia. Ela ficava em frente à casa de Amélie (Audrey Tautou), onde a protagonista comprava frutas e legumes com o senhor Collignon (Urbain Cancelier)  e com o seu ajudante Lucien (Jamel Debbouze).


5- Estação de Metrô Lamarck-Caulaincourt: Amélie decide ajudar um senhor cego, dando-lhe detalhes do caminho até chegar a essa estação.



6- Rue Saint-Vincent: A rua que serviu como cenário da cena em que Amélie andou de moto com o seu par romântico Nino (Mathieu Kassovitz).



7- Sacré Coeur: A Igreja do Sagrado Coração de Paris é o local onde Amélie deixa pistas para que Nino  possa resgatar sua pasta. Ela põe setas nas escadarias, dando dicas de onde ele poderá encontrar a pasta com suas coleções.


8- Carrossel da Place Saint-Pierre: Aos pés da Sacré Coeur, o carrossel se destaca, aparecendo durante uma breve cena do filme.



9- Catedral de Notre-Dâme: Uma turista do Quebec se joga de cima dessa catedral e cai em cima de Amandine (Lorella Cravotta), a mãe de Amélie.


10- Quando Amélie queria pensar um pouco, ela ia para a Pont des Arts, mirando o Louvre ao fundo.


Com informações e imagens das páginas: Passaporte 77 e Perda de Foco

Siga no twitter: @FelipeTavares




sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Como o cinema ameniza temas polêmicos através do olhar infantil



O filme, "O Labirinto do Fauno", do mexicano Guillermo Del Toro, narra a história da garota Ofélia, que vivia sob os cuidados da mãe doente e do padastro carrasco, um militar que vivia para caçar rebeldes após o fim da terrível Guerra Civil Espanhola. Diante de tanta opressão e assassinato, a pequena Ofélia cria um mundo paralelo de imaginação e fantasia, sendo essa a única forma de fugir da realidade de uma criança maltratada pelo padrasto autoritário, com uma mãe doente e submissa e com os rastros de sangue, causados pela guerra na Espanha, ainda frescos bem ao lado da janela do seu quarto.

No italiano e vencedor do Oscar, "A Vida é Bela", de Roberto Benigni, o judeu Guido é mandado para um campo de concentração nazista ao lado do seu filho, o pequeno Josué. Certo de que ambiente que haviam sido levados a força escondia detalhes da tenebrosidade que foi o holocausto, Guido passa a criar um mundo imaginário para poupar seu filho do horror daquele campo. A forma com que o personagem de Roberto Benigni transformou um espaço de morte e repressão em um local que ofereceria um excitante jogo entre pais e filhos, cujo prêmio final seria um tanque de guerra, foi lirismo puro, sendo "A Vida é Bela" uma das maiores fábulas do cinema italiano.

Em "O Menino do Pijama Listrado", de Mark Herman, o menino Bruno, que tem como pai um oficial nazista, acaba conhecendo no campo de extermínio ao lado de sua casa, uma criança fadada a morte: o judeu Shmuel. Para Bruno, o horror da segunda guerra e a rivalidade entre alemães e judeus não existia, seu olhar puro e inocente desconhecia toda essa crueldade. Para ele Shmuel vivia nesse campo, como qualquer outra criança poderia viver em um vilarejo, só que eles vestiam pijamas o tempo todo. E para Bruno, isso era no mínimo curioso.

Por fim, no longa-metragem nacional, do diretor Cao Hamburguer, "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" conhecemos a história de Mauro, um garoto de 12 anos, filho de pais comunistas, em pleno ano de 1970, época em que a ditadura militar prezava pela tortura daqueles que se voltavam contra o sistema ditatorial. Para não serem mortos, os pais de Mauro acabam levando o filho para viver com o avó enquanto se escondiam dos militares. Para justificar a fuga, os pais do menino disseram a ele que iriam tirar um ano de férias. Em meio a muros pichados, como forma de protesto, e ações policiais violentas contra os chamados "subversivos", vemos uma criança que sonha em ser goleiro, em ver o Brasil ganhar a copa de 70 e em reencontrar os pais, que tiravam ''férias'' pra fugir dos horrores que os porões da ditadura lhes reservava.

O que esses quatro filmes tem em comum? Todos eles retratam, sob o olhar inocente de uma criança, acontecimentos de horror que assombraram a humanidade em épocas distintas como a Guerra Civil na Espanha, o Holocausto, a Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Militar no Brasil. Todos esses filmes usam do lirismo e da fantasia para amenizar e tornar mais sutil o tratamento de temas polêmicos. Para Ofélia, em "O Labirinto do Fauno" a existência de um labirinto repleto de seres estranhos e fantasiosos, a tirava não só do horror que toda a Espanha havia presenciado durante a guerra, mas também do horror que era viver com um padrasto machista e autoritário. O mesmo aconteceu com Josué, Bruno e Mauro em seus respectivos filmes, eles tiveram uma visão mais otimista e poética de situações que aterrorizavam os adultos. Todos os diretores dos quatro filmes citados reproduziram, da forma mais sutil possível, o impacto que esses acontecimentos terríveis tiverem no universo infantil. E da-lhe sensibilidade, da-lhe puerilidade.

Por: @FelipeTavares