terça-feira, 9 de novembro de 2021

FORA...


Fez-se assim, tão de repente

O escuro, a anomalia

Resistência é meu lema,

Aceitar o inaceitável, jamais!


Brota-se o ódio,

O indefensável senso segregador

Lugar vazio, frio, de falsa fé cristã

Só resta a esperança

Outrora perdida,

Nessa pátria desolada, desalmada

Aniquilada por porões, de ontem e hoje

Resistiremos e clamaremos em uníssono:

"Outra vez, fascistas não passarão!"


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Aqui nessa casa todo mundo é feliz...


















Aqui nessa casa mora um rapazinho de gosto peculiar.
Não anormal. Não errado. Apenas peculiar.
Aqui nessa casa todas as cores são bonitas e são aceitas.
Porque todas elas representam amor e alegria.
Aqui nessa casa todos os amores são reais e são possíveis.
Aqui nessa casa todo mundo é feliz.
E ele é feliz porque ele  adora a cor rosa.
E ninguém o julga por isso.
Aqui nessa casa todo mundo é feliz.
Aqui nessa casa todo mundo é feliz.
Aqui nessa casa todo mundo é feliz.
Repita isso.
Repita de novo e de novo e de novo.
Aqui nessa casa todo mundo é feliz.
Todo mundo é feliz nessa casa.
Guarde essa frase.
Repita quantas vezes for necessário.
Repetição te leva à verdade e à aceitação.
E um dia esses versos serão reais.
E todos os amores serão possíveis.
E todas diferenças serão aceitas.
Apenas repita que nessa casa todo mundo é feliz.
E acredite.

domingo, 17 de julho de 2016

Terrinha...

"Irás a Brodowski, onde o céu é maior. Todas as estrelas, vestidas de festa, aparecerão para te ver" — Cândido Portinari



domingo, 25 de outubro de 2015

O conformismo e conflito de classes retratados no premiado "Que Horas Ela Volta? (The Second Mother)"

"Ninguém precisa explicar, a pessoa já nasce sabendo o que pode e o que não pode".  


Essa é a resposta que a doméstica Val, interpretada por Regina Casé, no filme "Que Horas Ela Volta?", dá para sua filha Jéssica (Camila Márdila) quando a mesma lhe questiona sobre a passividade com que lida e aceita o tratamento de segunda classe que recebe dos seus patrões. Trata-se de uma teoria elitista perversa, inocentemente reproduzida pelas classes mais baixas, de que nada deve ser renovado, transformado, evoluído ou desejado. É assim, e pronto. O lugar da empregada e do patrão são pré-estabelecidos por uma linha divisória e ninguém ultrapassa ela. Ninguém se mistura.





Cada frase dita pela doméstica Val no longa-metragem é um soco no estômago, é de fazer a gente sair da sala do cinema morrendo de vergonha pela naturalização do conformismo no discurso dos trabalhadores brasileiros, um discurso que as classes mais altas impõe às mais baixas. E isso é histórico. O conflito de classes, o conformismo daqueles que vestem, sem reclamar ou questionar, a carapuça da inferioridade, acreditando que a mobilidade social não passa de um sonho impossível. Isso me envergonhou não só no cinema, mas também em casa, nas ruas, e nos corredores de uma USP elitista, movida a indignação seletiva e discursos meritocráticos. Que bom que o mundo viu e aplaudiu esse filme, que bom que a excelente diretora e roteirista Anna Muylaert escancarou para quem quisesse ver, como a sociedade brasileira é arcaica, feudal e hipócrita. Na Europa, aplaudiram o roteiro do filme, acharam tão inusitada e surreal essa relação perversa entre doméstica x família de classe média alta, que isso só poderia ter sido fruto de uma mente genial, de um roteirista criativo, inovador e surrealista. Mas não. Essa é a triste realidade do Brasil. Vai ter filha de empregada nadando em piscina de patrão sim, vai ter filha de empregada estudando nas melhores faculdades públicas do país sim, e se reclamar, vai ter mais!



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O Sal da Terra: a arte de fotografar retratada no documentário franco-brasileiro indicado ao Oscar

"Minha fotografia não é militância, não é uma profissão. É minha vida. Adoro a fotografia, fotografar, estar com a câmera na mão, olhar pelo visor, brincar com a luz. Adoro conviver com as pessoas, observar as comunidade - e agora também os animais, as árvores, as pedras. Minhas fotografias são tudo isso, e não posso dizer que são decisões racionais que me levaram a olhar para isto ou aquilo. É algo que vem de dentro de mim. O desejo de fotografar está constantemente me levando a recomeçar. A buscar outros lugares. A procurar outras imagens. A tirar novas fotografias, ainda e sempre."Sebastião Salgado




O Sal da Terra

Direção: Juliano Ribeiro Salgado, Wim Wenders
Gênero: Biografia/Documentário
Ano: 2014
Origem: Brasil/França/Itália
Duração: 110 minutos
Sinopse: O filme conta a trajetória do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e seu projeto "Gênesis", cujo objetivo era registrar, a partir de imagens, civilizações e regiões do planeta até então intocados.




A fotografia, de acordo com o artista e teórico Philippe Dubois, não é simplesmente uma imagem, é também "um ato icônico, algo que não é possível conceber fora de suas circunstâncias. A foto é uma imagem-ato que não se limita apenas ao gesto da produção, mas que inclui o ato de sua recepção e contemplação". Dessa forma, a fotografia é o espelho do mundo, ela acompanha a transformação de uma realidade da qual ela faz parte. A produção e criação de uma imagem e a sua contemplação são os dois lados de um mesmo ato criativo. Em consonância com este pensamento, onde o ato de fotografar se apresenta quase como uma prática revolucionária, "O Sal da Terra" nos apresenta a obra e a genialidade do fotógrafo Sebastião Salgado. Este artista viajou durante os últimos quarenta anos pelo mundo todo, registrando os acontecimentos mais importantes da segunda metade do século XX.


Depois de fotografar durante anos os conflitos sociais mais terríveis do planeta e as suas consequências (fome, refúgio, massacres, revoluções, guerras e desastres), o artista embarcou em um ambicioso projeto para documentar a interação entre o homem e a natureza, a fim de apelar para o consciência de preservar os ecossistemas do planeta. Parece que é através da sua obra que Sebastião vai buscando o sentido da existência, questionando os aspectos mais obscuros da humanidade e tentando encontrar dentro das experiências mais cruéis e revoltantes aspectos de luz e de dignidade que permitem voltar a crer na humanidade. Essa busca se revela também em seu último trabalho, onde a natureza é a protagonista. A natureza, e o cuidado da mesma, é concebida como uma espécie de volta às origens e como uma possibilidade de redenção.


As reflexões sobre a arte da fotografia e em especial sobre o comportamento humano fazem desse documentário uma experiência visual, e também filosófica, extraordinária e chocante, como poucas vezes se viu no cinema. Vida longa ao Mestre!





domingo, 14 de junho de 2015

A relativização da dor alheia


Como já dizia Caetano Veloso na sua canção Dom de Iludir, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. De fato sabemos, e sabemos sobretudo sobre a nossa dor. Aquela dor que não compartilhamos nas redes sociais, aquela dor que muitas vezes tentamos guardar dentro da gente com medo de sofrer repressão da trupe que diz que tudo é "vitimismo", tudo é "mimimi". Compartilhar tristeza ainda não é tão popular quanto compartilhar momentos felizes, de bebedeira e sorrisos. O seu sorriso, muitos conhecem, a sua dor mais íntima, não. Porque, por mais que haja boa vontade e empatia,  as pessoas jamais poderão sentir aquilo que sentimos de fato. Essa avaliação é subjetiva, íntima e individual. Não há espaço para julgamentos, aqui ele não é um ato fidedigno.

'"Fala-se de tudo. Da moral, do comportamento, dos sentimentos, das reações, dos medos, das imperfeições, dos erros, das criancices, ranzinzices, chatices, mesmices, grandezas, feitos, espantos. Sobretudo falam do comportamento e falam porque supõem saber. Mas não sabem, porque jamais foram capazes de sentir como o outro sente. Se sentissem não falariam.'' — Nelson Rodrigues

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Marxismo e Feminismo: Libertação sexual das mulheres



Final de ano. Hoje vou abrir mão de postar um texto autoral para citar Judith Orr, que escreveu um artigo incrível (Marxismo e feminismo hoje, 2011), relacionando o marxismo e o feminismo no que diz respeito ao papel da mulher na sociedade. Nesse estudo a autora desafia o sistema capitalista, luta contra as manifestações que oprimem as mulheres e ainda defende o ideal de uma sociedade livre de opressão e exploração. 

Vou destacar um trecho do artigo que aborda um dos assuntos mais interessantes no que diz respeito ao feminismo: A objetificação do corpo da mulher como forma de lucro, o que reforça estereótipos da passividade feminina na cama em uma cultura patriarcal, em detrimento de uma postura agressiva e insaciável incorporada aos homens, consumidores de todos os produtos que a sexualidade feminina rende para a indústria . Essa discussão da objetificação da sexualidade também nos faz refletir sobre a emancipação sexual da mulher e nos ajuda a desconstruir toda aquela ideia de que é "puta" a mulher que se satisfaz com sexo casual, e que o correto, na verdade, seria ter um único parceiro para cumprir o papel de esposa submissa, cristã e reprodutora.  Boa leitura: 
''Marxistas se envolveram em debates anteriores sobre pornografia e prostituição, mercantilização e libertação sexual, e temos muito a oferecer nos debates atuais. Marx escreveu sobre o processo de alienação, a habilidade do capitalismo de transformar partes intrínsecas de nossa humanidade em objetos alienados para serem comprados, vendidos e possuídos. Somos forçados a vender nossa habilidade de trabalhar se quisermos sobreviver. Então mesmo nossa sexualidade é transformada em algo alienado de nós. Uma nova liberdade de expressão, cuja luta foi difícil, é distorcida pelo sistema para transformar tudo em uma fonte de lucro. Libertação é transformada em seu oposto: mulheres são pressionadas para se conformarem em algo cada vez mais caricaturesco do que deveria ser 'sexy', enquanto homens são encorajados para ver a si mesmos enquanto indefesos prisioneiros de sua testosterona: sexualmente agressivos e insaciáveis. Então, quando falamos em lutar contra o novo sexismo, temos que deixar claro que somos favoráveis à genuína libertação sexual, por uma maior abertura sobre o sexo e a sexualidade. Não estamos com os Tories e outros que possuem uma agenda profundamente reacionária sobre a sexualidade e o papel da mulher na sociedade. Devemos nos distanciar daqueles que criticam o novo sexismo com ideias que pregam que a mulher deve ser acanhada e passiva quando se trata de relações sexuais ou procuram limitar a educação sexual em escolas ou impor censura. A censura permite aos juízes e políticos da classe dominante atuarem como árbitros do que é aceitável para lermos, assistirmos e produzirmos. Deixamos claro que somos contrários à grosseira mercantilização do corpo das mulheres, que é mostrada como confiança sexual.''  
Leia o artigo, na íntegra: Marxismo e feminismo hoje, por Judith Orr

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